Abdicando da propriedade e privilegiando o acesso – A experiência ZipCar

Durante muitos anos o carro foi um dos principais desejos de consumo de jovens que estão iniciando a sua independência financeira. Simbolo de status e de progresso, o carro sempre foi propagandeado como produto que traria mais liberdade e identidade ao seu usuário.

Nesse sentindo, todas as publicidades criadas para incentivar a compra do automóvel eram plenamente baseadas em fornecer benefícios funcionais (maior facilidade de transporte) , mas essencialmente benefícios ego-emocionais (status, simbolo de progresso econômico e ser melhor visto pelo outro).

Através dessa lógica, não é de se estranhar que poucas pessoas tenham o costume de emprestar seus carros ou de dar caronas a pessoas que trabalham e moram próximas umas das outras, novamente a sociedade de consumo criou um ambiente onde o Eu prevalece sobre todas e quaisquer formas de expressão da coletividade.

Porém, a nova geração do compartilhamento, está repensando a real utilidade dos carros e se realmente necessitam possuir um carro

Um estudo feito pela Universidade de Michigan demonstra que jovens norte  americanos e europeus possuem um desejo menor de serem proprietários de um carro do que as gerações antigas. A pesquisa aponta que muitos desses jovens estão privilegiando empresas de compartilhamento de carros e vendo a ideia de possuir um automóvel de forma menos romântica.

É nesse contexto que foi criada a ZIPCAR. Para quem não conhece a empresa ou nunca escutou falar, vou relatar como é a experiência de utilizar um serviço altamente customizado e que atende todas as necessidades que um carro poderia atender.

Imagina a seguinte situação,

Você está na praia e deseja ir visitar um amigo que mora a meia hora de distância do local em que você está e não possui um carro. Lembrando da existência do ZipCar você baixa o aplicativo da empresa  e já escolhe um carro que será seu parceiro de viagem até a residência do seu amigo, o pagamento é realizado pelo próprio celular e o local onde existe um automóvel mais perto será indicado por você através da ferramenta de geolocalização do aplicativo.

Após realizar o pagamento, o aplicativo gerará uma senha. Ao caminhar até o carro, você passa a senha em um leitor que está localizado perto do para brisa do automóvel e ele será destravado. Pronto, você tem acesso a um carro até determinada localidade. O aplicativo foi tão bem desenhado que assim que você está chegando ao seu destino final, ele te apresenta uma série de estacionamentos da empresa onde você pode deixar o carro, possibilitando que outra pessoa o utilize em outro horário.

A ideia é tão simples e fantástica que vem crescendo de forma significativa nos mercados europeus e norte-americanos. Pode-se afirmar que do ponto de vista de mercado as empresas como ZipCar e Relay Rides que tem o mesmo conceito no core do seu negócio baseiam-se em três pilares principais:

Tecnologia móvel (aplicativos e geolocalização) como propulsora de novos negócios;

Acesso descomplicado e simples;

Baixo custo de acesso em comparação com o “custo de propriedade”;

Levando em conta que um norte-americano gasta mais de US$8 mil dólares anualmente para manter seu carro em boas condições não é de se espantar que as pessoas estão migrando para um economia de compartilhamento que privilegia o acesso e abdicando da propriedade dos produtos, é nesse sentido que nasceram as empresas de compartilhamento de carros. A lógica baseia-se tanto em premissas financeiras como em benefícios diretos, onde e quando o usuário quiser terá um carro a disposição.

Com esse enfoque, pode-se afirmar que os mercados onde a economia de compartilhamento terá maior sucesso se situa nos produtos que possuem um alto custo de compra e uma baixa frequência de uso.

Porém, a ZipCar ao notar a forte adesão de usuários aos seus serviços quis entender de forma mais profunda a relação do carro com seu usuários e realizou uma pesquisa onde 250 participantes autoproclamados “amantes de carros” em mais de 13 cidades diferentes aceitaram o desafio proposto pela empresa. A ZipCar fez uma proposta aos apaixonados por carros, a de abdicar das chaves de seus automóveis e apenas poder pedalar, andar e se transportar com meios públicos e apenas utilizar os serviços do ZipCar quando achassem absolutamente necessário. Os resultados da pesquisa foram extramente inesperados levando em conta o corte psicográfico (apaixonados por seus veículos próprios) dos participantes. Dos 250 participantes houve uma queda de 87 kilos apenas com os exercícios diários, o dado mais impressionante da pesquisa é que 100% dos participantes não quiseram suas chaves de volta. Em outras palavras, a experiência fornecida pela ZipCar fez com que os apaixonados por carros notassem a idéia de propriedade de um veículo de forma menos romântica, valorizando o acesso do carro no momento exato em que sentiam esse desejo.

Essa pesquisa demonstra que a propriedade está perdendo lugar para o acesso imediato e em qualquer lugar. Algumas empresas automobilísticas estão de olho no futuro e já investem no modelo de compartilhamento de carros, como é o caso da GM que foi uma das principais investidoras do RELAY RIDES. Embora pareça uma pouco contraditório uma empresa que sobrevive através da produção e consumo de carros apoiar esse novo tipo de modelo, esse ponto também demonstra que as empresas estão abertas as novidades do mercado e dos consumidores. Lutar contra a maré nunca trouxe bons resultados no setor corporativo, o poder de flexibilidade para as mudanças sempre foi ponto crucial para a sobrevivência de empresas em diversos segmentos.

Os dados apresentados por Neal Lawson em seu livro “All Consuming” demonstram que em 2015, estima-se que 4,4 milhões de pessoas na América do Norte e 5,5 milhões na Europa esteja usando o ZIPCAR.

Nesse contexto, deixo os leitores pensando sobre  os benefícios ambientais e sociais sobre as plataformas de consumo colaborativo. A ideia de não possuir um carro e poder contar com o acesso de um automóvel a qualquer momento traz uma nova dinâmica de mercado e diminui nossa relação egoica com os automóveis.

Deixo um infográfico que explica com dados e informações relevantes sobre como o compartilhamento de carros vem crescendo de forma exponencial nos mercados norte-americanos e europeus

http://futureofcarsharing.com/

Abraços a todos!

Por Martin Draghi

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7 opiniões sobre “Abdicando da propriedade e privilegiando o acesso – A experiência ZipCar

  1. Bárbara

    Oi Martin! Gostei muito do artigo! Realmente, esse novo modelo de consumo de carros seria ideal para diminuir o caos do trânsito diário, além de contribuir para a natureza e para o bolso. A não ser que sejam implantados os carros voadores dos Jetsons (um sonho!), Que bom que já está sendo bem difundido lá fora, mas acho que vai custar a funcionar aqui no Brasil. Além de ser difícil desapegar da ideia de ter um carro próprio e cuidar desse bem, acho que ia acabar gerando uma nova modalidade de assaltos.

    PS. Não entendi uma coisa… o serviço do ZipCar só funciona como “carona” ou a pessoa pode dirigir o carro sozinha? E se ela está utilizando o serviço, é obrigada a dar carona?

    bjs, Parabéns pelo Blog! Sucesso!

    • O serviço do ZipCar é pra qualquer pessoa que queira um carro em qualquer momento, basta a pessoa baixar o aplicativo e ver o carro da empresa que está mais próximo.

      A pessoa não é obrigada a dar carona. A principal vantagem desse modelo é que você não precisa ter um carro pra se locomover, o custo do aluguel do carro é tão mais barato que sua compra que acaba valendo muito mais a pena andar com os carros da ZipCar.

      Não concordo com a ideia de que seria um modelo que propiciaria novos assaltos, pois o aplicativo tem um extenso formulário de cadastramento antes de você conseguir destravar qualquer carro.

      Outra vantagem desse tipo de negócio é que o contato com os clientes se dá de forma muito maior, aumentando as chances de personalizar o serviço a cada interação com o consumidor. Diferente do que ocorre na compra de um automóvel onde o contato com o consumidor se dá de maneira isolada, o que acaba acarretando maiores custos de pesquisa para a empresa.

      Valeu Bárbara! Sinta-se a vontade pra comentar.

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