“Capitalismo Infantil” e a puberdade colaborativa

Sabe aquele estágio que vivemos na infância em que afirmarmos que tudo é nosso? Qualquer compartilhamento de nossos brinquedos é rapidamente respondido com uma crise de choro seguido das palavras “é meu, é meu”? Essa atitude levanta algumas questões, seria o egoísmo um sentimento natural do ser humano ou algo causado única exclusivamente pelo o meio no qual vivemos, extremamente marcado pela concorrência em seus diversos níveis educacionais, corporativos ou sociais?

Analisando a sociedade de consumo, pode-se afirmar uma questão extravagante. Nos últimos 60 anos vivemos no que gosto de chamar de “capitalismo infantil”. Explico-me: todos nós temos hábitos de consumo egoístas, raramente vemos propagandas de automóveis que estimulem a prática da carona (por motivos óbvios); poucas são às vezes as quais nos deparamos com encontros de pessoas que vivem no mesmo condomínio; não é raro que grande parte das pessoas não saiba nem o nome de seus vizinhos. Essas são as claras consequências da publicidade voltada para o Eu, onde o “NÓS” não faz parte da arena midiática.

Isso é, assim como a fase da infância que mencionei no início do texto, temos uma grande dificuldade e uma falta de costume muito grande em relação ao compartilhamento de nossos bens. O que nos leva a inevitável pergunta, por que optamos por uma sociedade tão isolada, egoísta e plenamente baseada no individualismo? Tenho minhas dúvidas se realmente optamos por esse modelo, ou se ele nos foi puramente imposto.

Para motivos de esclarecimentos, não estou demonizando as pessoas tidas como consumistas, o problema é que diferente do pensamento de muitos economistas neoliberais não podemos mais nos dar ao luxo de consumirmos de forma isolada, egoísta e ilimitada, não temos condições materiais, e muito menos sociais para suportar tal modelo de desenvolvimento.

Felizmente, a sociedade individualista catalisada pelas megacorporações e suas incessantes estratégias publicitárias está pouco a pouco encontrando – através das redes sociais, tecnologias móveis e um maior nível de consciência coletivo – uma nova maneira de nos relacionar com o meio no qual vivemos, através de um conceito antigo, porém extremamente fresco nos dias de hoje: a colaboração

A colaboração, tão esquecida no “capitalismo infantil”, surge novamente não como uma novidade, mas como um modelo de desenvolvimento no qual podemos realmente atingir níveis sustentáveis de convivência sem a necessidade de grandes sacrifícios de nossas partes, o aparecimento de modelos de negócios baseados na colaboração confirmam os pontos citados acima.

Para melhor ilustrar os pontos que defendo acima irei apresentar alguns casos interessantes, no qual, através da tecnologia podemos nos unir por uma causa comum e realmente iniciarmos um processo no qual os cidadãos tem de volta seu poder de decisão no território onde vivem, e não apenas esperar de braços cruzados ações governamentais etiquetadas como únicas soluções possíveis.

O movimento Crowdfunding, que tem como objetivo o financiamento coletivo para projeto alcançou metas incríveis. Um exemplo na área social é o site juntos.com.vc. Um dos projetos mais interessantes encontrados na plataforma é o Escola de Resiliência Azul, que tem como objetivo financiar uma semestre de educação diferenciada, baseadas nos conceitos da antropofasia da pedagogia Waldorf beneficiando cerca de 105 crianças carentes. O projeto teve uma taxa de sucesso de 118%, ultrapassando a meta inicial de RS10.800,00 para R$12.750,00. Em média, os 119 contribuintes do projeto ajudaram com a quantia de R$107,00 para fornecer educação de excelente qualidade para crianças de baixa renda. Segue abaixo o vídeo para conhecerem um pouco mais da Escola

Um ponto valioso no conceito de financiamento coletivo, é que a origem do dinheiro não está atrelada a nenhuma entidade pública ou privada, o que por si só dá uma maior flexibilidade para que o projeto tenha liberdade para gerir o dinheiro recebido sem maiores “amarras” dos financiadores, sejam do setor privado ou público, o qual, é comum intrometer-se quando realizam ações “filantrópicas”.

Outro caso interessante, voltada a área corporativa, é a ascensão das plataformas de compartilhamento de carros. Um grande exemplo é a empresa Relay Rides, onde você pode alugar o seu carro no momento que quiser para outro usuário da plataforma. Funciona da seguinte maneira. Você se cadastra no site e inclui o preço e o horário no qual pode emprestar seu carro, a empresa instala um dispositivo no qual o locatário pode abrir seu carro através do smartphone e voilá, você está fazendo dinheiro com um bem que antes ficava parado 20 horas por dia em sua garagem. Vale lembrar, que a Relay Rides tem um seguro equivalente a US$ 1milhão caso aconteça algum problema durante a viagem, dessa forma, tanto locatário como quem aluga ficam tranquilos. Novamente, a tecnologia amadurecendo o capitalismo infantil e nos reunindo para colaborarmos de formas mais inteligentes.

E os exemplos não param por aí, além de compartilhamento de carros, também temos o compartilhamento de espaços como o Couchsurfing (de graça), AirBnb, Fica Lá Em Casa, compartilhamento de roupas para bebes como thredup e o brasileiro bbbrecho entre outros que estão aparecendo todos os dias.

Notadamente, o capitalismo substitui os berros egoícos de “é meu, é meu” citados no início do texto e começa a compartilhar os bens criados pelo seu próprio sistema. O consumo colaborativo é nada mais do que a reorganização  e a revisão da forma como encaramos o consumo e das questões que realmente importam. Diferente do que vemos na TV, um carro, uma geladeira, ou qualquer outro produto dificilmente preencherá o espaço que deve ser ocupado pela felicidade.

Por Martin Draghi 

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