A revolução colaborativa e o nascimento de um novo paradigma

Um dos períodos que mudaram o rumo das relações humanas foi a Revolução Indústrial. A melhora nos processos produtivos das fábricas e a inserção de novas tecnologias modificaram de forma significativa a dinâmica econômica e social dos países do mundo todo, e teve como principal consequência o nascimento de uma nova relação entre capital e o trabalho. Aliada as novas tecnologias industriais a publicidade também teve papel fundamental na construção de uma cultura, que tinha como principal característica a notória padronização de comportamentos através dos aparatos midiáticos. Outro papel importantíssimo da publicidade era atribuir valor simbólico aos produtos que eram vendidos, assim, com todos os mecanismos de persuassão os clientes eram levados a crer que realmente estavam consumindo mais do que um simples produto, estavam na verdade consumindo também uma imagem que traduzisse seus valores e pensamentos frente aos demais atores da sociedade, nasce a sociedade marcada pelo prenchimento de necessidades egóicas. Um aspecto importante em relação ao nascimento da cultura do consumo em massa, é que houve uma resignificação e uma revalorização dos valores sociais, assim, status, exclusividade, sensação de pertencimento de algum grupo através do consumo e outros valores essencialmente voltados para a alimentação do ego ganharam uma maior importância no tecido social, e começaram a serem vistos como indicadores de sucesso pessoal.

Porém, de alguma forma a realização do processo de compra e de obtenção de produtos tomou um rumo extremamente marcado pelo egoísmo, ou seja, os consumidores não levavam em conta os malefícios ambientais, sociais e econômicos implicados no ato de consumir, até por que estes fatos não tinham a devida atenção que mererciam. Os produtos eram vendidos de forma unitária, a serem adquiridos e consumidos individualmennte, não houve nenhuma preocupação em entender melhor os limites de recursos que tinhamos disponíveis, com isso as implicações negativas de instituirmos uma sociedade totalmente direcionado e alimentada para o consumo estão cada dia mais óbvias.

A poluição alcançou níveis insustentáveis, a produção de valores criados pela cultura de massa através do consumo são totalmente distorcidos das reais necessidades que temos em nossas vidas e nossas relações sociais foram se deteriorando. Uma excelente forma de traduzir uma das consequências do consumo ilimitado é a formação das chamadas “ilhas de lixo”, que são locais nos oceanos onde a concentração de lixo é tão grande que infelizmente acaba nos apresentando imagens como estas. 

Localização das ilhas de lixo

como o lixo se forma

ilha de lixo

Porém, ao longo dos últimos anos vem surgindo uma nova forma de nos relacionarmos com os produtos que consumimos, chamado de consumo colaborativo. A principal característica que define o consumo colaborativo é que as empresas atuantes nessa área entendem que oferecer o ACESSO ao invés da POSSE é mais benéfico tanto para o cliente, como para as implicações sociais, ambientais e econômicas dessa “nova” prática de consumo.

Para ilustrar e facilitar o entendimento sobre o consumo colaborativo irei apresentar o caso do AirBnB, que oferece serviços baseados nos conceitos de consumo colaborativo e no compartilhamento de bens. A empresa criou um conceito totalmente inovador de hospedagem. O serviço funciona da seguinte maneira, se você tem algum quarto ocioso na sua casa, que não esteja sendo usando, por que não ganhar um dinheirinho alugando-o para viajantes do mundo todo?

Quais são as principais vantagens dessa forma de consumo? As implicações sociais são enormes, pois uma vez que você precisa comunicar-se com uma pessoa para realizar a sua “compra” o capital social torna-se principal chave competitiva para que o negócio dê certo, ou seja, é de interesse do próprio AirBnB estimular um melhor relacionamento entre os usuários do site. A principal pegada estratégica do AirBnB foi de notar que existe muito espaço nas cidades que são pouco utilizados, ou seja, por que não ganhar dinheiro alugando um quarto da sua casa que ninguém faz uso? Esse é outro conceito inerente ao consumo colaborativo, diminuir ao máximo a capacidade ociosa de produtos e otimizar a utilização dos recursos que JÁ temos disponíveis.

É importante lembrar que o AirBnB possui um detalhado sistema de confiabilidade entre os usuários, esse sistema é o que viabiliza em grande parte que estranhos aportem mais confiança em outras pessoas. O sistema é bem parecido com o criado pelo Ebay onde os próprios usuários podem classificar como bom ou mal comprador, assim como também deixar algum comentário em relação a atuação do comprador ou vendendor, ou seja, essa forma de métrica é positiva, pois, afasta os possíveis usuários que não tem boas intenções ao utilizar o serviço. Novamente, a necessidade do AirBnb é a de criar uma comunidade de viajantes que confiem em seus membros. Nesse sentido, pode-se afirmar que, o valor da marca AirBnB se traduz como o nível de capital social estimulado pela empresa entre seus usuários, ou seja, a MARCA É A COMUNIDADE.

A forma do AirBnB lucrar com seu serviço é a de receber 6% do valor do alúguel, como taxa de intermediação da troca, e pelos dados apresentados parece que está dando muito certo. Outra característica interessante é que o site não possibilita o cadastro de redes de hoteis entre seus membros, esse fato se dá pois o AirBnB tem como principal foco criar uma economia P2P (peer-to-peer), ou seja, de pessoas para pessoas sem que haja um grande intermediário para viabilizar o consumo, mais uma vez fica evidente a importância estratégica de estimular o capital social entre os usuários do site. Nota-se que após alguns anos de existência o AirBnB é responsável por criar “micromini empreendedores”, ou seja, pessoas que utilizam o dinheiro que ganham alugando seu quarto como forma de complementar a renda.

Quais são os benefícios ambientais e econômicos trazidos pelo AirBnB através do consumo colaborativo? No nível ambiental pode-se afirmar que uma vez que existem maiores usuários e maiores espaços disponíveis para alugar a necessidade de construção de grandes redes hoteleiras é praticamente nula, em NY por exemplo o AirBnB já possui pelo menos 1 usuário em cada esquina da cidade. É importante lembrar ao leitor que como a própria pessoa decide o preço no qual deseja alugar seu quarto, a maioria dos imóveis ofertados no site possuem preços significativamente mais baratos do que as redes hoteleiras, apresentando-se como um importante concorrente frente as grandes franquias de hoteis.

No nível econômico existe um redirecionamento das verbas que antigamente iriam para as redes hoteleiras. Isso é, o consumo colaborativo acaba criando “microminiempreendedores” que agora alugam um quarto da suas casas e utilizam o dinheiro extra como forma de complementar a receita da família. Outro ponto econômico interessante é que devido ao fato de você se hosperdar junto a moradores de determinada região, acaba por ter uma experiência de viagem diferente, uma vez que o morador irá te indicar lugares que não são privilegiados pelos batidos roteiro turísticos, alimentando assim a economia local e apoiando os pequenos comerciantes e empreendedores da região.

É importante aclarar que o AirBnb não é um exemplo isolado de empresa que se baseia no consumo colaborativo. Empresas no ramo de transporteempréstimos financeiros, hospedagem e outros setores estão remodelando os mercados onde atuam através de estratégias que tem como base o consumo colaborativo.

Qual a principal mudança trazida pelo consumo colaborativo? O benefício mais evidente é a reaproximação entre pessoas desconhecidas. Nota-se que as empresas que utilizam estratégias voltadas ao consumo colaborativo tem como principal vantagem competitiva o estímulo ao capital social, ou seja, do ponto de vista estratégico estimular uma boa relação entre os usuários da plataforma é ponto fundamental para o sucesso da marca e da comunidade. Nesse sentido, há uma revalorização no entendimento da importância das relações sociais em nossas vidas.

Outro ponto importante é que através do compartilhamento de produtos, necessita-se menos matéria prima para a produção de novos produto. Dessa forma, surge um novo R no conceito de sustentabilidade, que é a importância dos mercados de Redistribuição. A importância desses mercados é que eles aumentam a vida útil de um produto, maximizando seu tempo de utilização e minimizando as quantidades de produto que iriam para o lixo sem serem posteriormente utilizados, ou seja, os impactos ambientais relacionados ao consumo são significativamente minimizados.

Nota-se que as vantagens trazidas pelo consumo colaborativo podem ser a solução pra muitos dos problemas que temos hoje.

Por Martin Draghi

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